Eu Não Sou Sua Princesinha!

Eu sei que realmente passei uma impressão equivocada sobre minha pessoa, e agora me sinto na obrigação de corrigir esse erro. É que essa coisa de você ficar pensando em mim da forma errada, realmente me incomoda. No momento em que nós nos conhecemos não fui verdadeira, no entanto, eu realmente acreditava que estava fazendo um bem a nós dois. Não usei de má fé, acredite. Fui levada pelo momento e pela vontade de estar em seus braços da mesma forma que chegava a mim, cheio de classe. Você parecia um Lorde tão lindo naquele seu terno elegante, que quando o arroto me coçou a garganta, tive que engolir. Isso eu teria feito de qualquer forma, óbvio, pois primeiros encontros não foram feitos para essas revelações constrangedoras.

No entanto, mesmo o resto da noite eu me saí tão fina e elegante, que isso te confundiu, e me confundiu. Eu realmente parecia uma princesa, com aquele vestido rodado cheio de brilho, que nem entendo porque coloquei, e aquela calcinha atolada na bunda odiosa de usar. Mas eu não sou aquela, meu bem, que senta de pernas cruzadas toda vez que põe um vestido. Minhas pernas cansam sabe, e quando menos percebo já estão abertas mostrando até o útero. Minha mãe sempre dizia – você não serve para usar saias, não tem modos. – Algo que discordo totalmente, pois não preciso de modos para usar o que eu gosto. Eu amo saias. Shorts incomodam minhas partes intimas, apertam onde não devem e quando a calcinha entra no rabo é bem difícil tirar, sinto até um pouquinho de vergonha quando tento efetuar o processo. Mas é só um pouquinho, logo passa com o alívio de cumprir a missão. Eu tento ser mais bem comportada, pelo bem da sociedade, mas sinceramente, não ligo de pagar calcinha de vez em quando. Bons modos quem precisa ter é a família real, então não me julgue querido, por um simples deslize.

E o que dizer sobre salto alto?  Machuca pra Cacete! Meu pé é um puta frouxo, se dói por qualquer coisa e às vezes penso que por ele ser tão fino e magro, está apenas revidando o fato de eu colocar tanto peso em cima dele. Ele odeia ser incomodado, mas abre uma exceção em ocasiões especiais como casamentos. Porém tem um prazo estipulado, tipo cinderela a meia noite. Costumo entrar na igreja já imaginando o momento de ganhar as tais das havaianas genéricas, para tirar de uma vez aquilo do pé. E se esse momento não chega, ou simplesmente demora, fico descalça mesmo, o importante é dar adeus ao sofrimento.

E então estarei livre para dançar até o chão. Farei vira vira de shots com a galera, e ao fim da festa sairei gargalhando alto, me segurando para não cair. Ou segurando aquela amiga que exagerou mais do que eu. Talvez chegue em casa meio zureta e necessite vomitar tudo. Não é uma regra, mas geralmente rola se a festa for muito boa. Se você estiver ao meu lado para segurar o meu cabelo, ficarei feliz. Seria um desastre sujá-los com vômito. Eles sim são dignos de uma princesa!

E cara, eu devo acordar com um puta dor de cabeça, com olhos borrados, parecendo uma vítima de atropelamento. Vou levantar desesperada atrás de um analgésico e há uma grande probabilidade de topar com o dedinho na quina da cama, uma vez que além de ogra, sou estabanada. Tampe os ouvidos porque vou xingar pra caralho, essa dor é foda cara, você sabe, talvez o que não saiba é que tenho a boca suja. E se reclamar disso vai ser meu cu pra você – não do jeito que você gostaria.

Sem falar nos gases que solto de vez em quando, parecendo uma bomba pressurizada, não dá pra chegar ao banheiro para explodir, e implodir é que não vou meu amor. Pode ser que aconteça na sua frente, uma, duas, três vezes… Mas se você liberar essa questão prometo te amar eternamente. Sem aquela conversa de como é feio mulher fazer isso. Eu sou linda, ta na cara, só não pode esquecer que sou humana, com um organismo que funciona (quase) igual ao seu. Mas meu querido, não fique assustado. Estou apenas tentando consertar a imagem errada que passei sobre mim. Eu bem queria ser sua princesa, mas acontece que meu lado ogra não permitiu. Me aceite como sou e seremos muito felizes juntos. Sem cobranças, sem caras feias, sem julgamentos, por que eu não sou nem nunca serei sua princesinha, PORRA!

Sobre o Autor

Mia Coutinho

Publicitária por formação, aeromoça por opção e escritora por paixão. Virginiana, perfeccionista, mãe do Henri. Entre fraldas e mamadeiras, entre pousos e decolagens, entre artes e artimanhas, ela escreve. Escreve porque para ela, escrever é como respirar: indispensável à vida!

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