Fudido, Fudido e Meio

Puta Merda, que vida infeliz, quanta encheção de saco. Quando você era criança nunca imaginou como sua vida ia ser complicada, não é? Puta que pariu hein!? E o que você pode fazer? Descabelar-se? Gritar, chorar?
O pior de tudo é que a culpa não é sua. A culpa é de um parente seu, ou daquele amigo retardado, filho da puta que te pediu um cheque emprestado, falando pra você não se preocupar.
Sabe aquele seu amigo de infância, que jurou ficar ao seu lado, apesar de todos os males? Pois é, esse mesmo amigo foi quem deixou sua vida complicada e te abandonou na primeira dificuldade.

Se você sempre foi aquela pessoa forte, calma, que costumava consolar seus amigos e parentes, nas horas ruins, quando as coisas davam errado, ou aquela pessoa que sempre ria das histórias de azar do seu pai, quando não dava mais pra chorar (isso porque você realmente acreditava que o seu futuro ia ser completamente diferente), o que faz agora que seu futuro chegou, e com ele, as mesmas complicações do azarado do teu pai?

É, amiguinho, agora consolar só não dá, vamos botar a cuca pra funcionar porque o problema agora é seu, aliás, ele é só seu. Parabéns! Agora você faz parte da família do Serasa, e é melhor amigo do SPC.

O azar te pegou meu irmão, e nem é culpa do pobre do teu velho, talvez um pouco seja, por causa do DNA, mas a culpa maior é daquele invejoso de anos atrás, que talvez nem lembre mais do teu pai, mas que fez uma macumba braba num tal cruzamento de uma cidade qualquer. E agora amigo, pegou na família inteira. Vamos todos juntos para um terreiro fazer um descarrego grupal, porque até o pobre do cachorro tá se escondendo embaixo da cama, com medo que o cobrador confisque sua ração.

O Foda é começar sua vida assim, se escondendo, deixando um lugar no armário, pra jogar a televisão, no instante em que a campainha tocar. Fora as chances que você perde.

Ah, te disseram que você não foi aprovado na entrevista de emprego porque você não satisfazia o perfil da empresa? Pura abobrinha. Não te contrataram porque no teu nome tem uma mancha enorme chamada DEVEDOR.

Eles ainda pensam que você tá manchado porque é irresponsável. Tem culpa você, se vendeu e não te pagaram, emprestou e não devolveram, bateram no seu carro (que estava sem seguro), a casa alagou, o cachorro adoeceu, os juros aumentaram e seu salário abaixou, comprou ações da bolsa e a crise apareceu, ganhou na mega sena mas roubaram seu bilhete…enfim, tem culpa você, se fez tudo certo, mas no final deu tudo errado?

Irresponsável é o cu deles. Ai, ai, quem dera você poder dar o luxo de ser irresponsável.

Mas a vida é assim mesmo. Na próxima entrevista de emprego, chega logo perguntando: Vocês contratam fudidos aqui? Mas não os fudidos que se fuderam por eles mesmos, mas os fudidos que a vida os fudeu?
Parênteses: a vida pode significar um parente,um amigo,um desconhecido, tanto faz, o que importa é que você tá fudido. E como deixar de ser fudido, se as empresas te fodem o tempo todo? Vamos parar de falar de fudição e bora falar de outra coisa. Merda, por exemplo.

O que você me diz das preocupações? Sua vida tá uma merda, a vida das pessoas que você mais ama, também tá uma merda. Aí além de você se preocupar com sua vida de merda, tem que se preocupar com a vida de merda deles também. É tanta merda na cabeça, que não tá cheirando bem.

Então, se fode de um lado e fede do outro. Mas vê pelo lado bom das coisas: pelo menos você tem algo pra escrever.
Imagina se não existisse este espaço? Ia ser um suicídio em massa, porque nem exclusivo você é meu bem, muito menos especial. Tem mais gente fudida como você e eu, do que mostram nossas pesquisas. Mas apesar de tudo galera, vamos olhar pra frente. O fim de semana tá aí. Depois de uma semana de merda, vamos prum buteco beber todas, fingir que é feliz, com outros fudidos que fingem melhor do que você.
Bota a cerveja na conta, que na segunda agente acerta. Afinal, fudido, fudido e meio.

 

Sobre o Autor

Mia Coutinho

Publicitária por formação, aeromoça por opção e escritora por paixão. Virginiana, perfeccionista, mãe do Henri. Entre fraldas e mamadeiras, entre pousos e decolagens, entre artes e artimanhas, ela escreve. Escreve porque para ela, escrever é como respirar: indispensável à vida!

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