Mãe, obrigada pela proteção

Não poderia começar sem citar o passado, que mesmo não lembrando você vive a me contar. E graças a você, que mudou toda a minha vida muito antes de eu poder entender o que era isso. Você que me recebeu, me acolheu e me chamou de “minha princesa” quando soube que um novo bebê faria parte da família. Foi difícil, né? Eu posso imaginar… Dois pré-adolescentes em casa e um novo bebê.

Quantas noites você passou em claro com meus choros com cólicas de madrugada? E as noites que peguei alguma doença ou fiquei com febre? E os dias que eu não queria comer e sua cabeça ficava a um turbilhão pensando o que eu tinha dessa vez?

Os meus primeiros dias na creche devem ter sido uma dor de cabeça enorme pra você, né? “Será que ela está bem?” “Será que estão cuidando bem dela?” “Será que ela comeu direitinho?” “Será que dormiu?” Quantos “serás” não passaram pela sua cabeça e coração tão protetores, hein?

Todos os choros porque havia brigado com coleguinhas porque eles não quiseram emprestar um brinquedo ou porque falaram que meu cabelo parecia uma juba de leão e você ali me consolando, compreendendo a minha dor e tomando-a para si, mesmo cheia de outras dores que a vida de adulto não permitia que eu soubesse…

Quantos ‘por quê mamãe?’ fizeram surgir cabelos brancos em você procurando alguma resposta convincente e decente para uma criança ouvir. Quantas vezes você precisava de um colo e ofereceu o seu para mim? Quantas vezes você precisou dizer ‘não’ querendo dizer ‘sim’.

Todas as broncas e os castigos que você me dava para me tornar uma pessoa melhor. Todos os conselhos e os avisos para não permitir que eu desviasse minha conduta e essência, para que eu me tornasse uma mulher como você.

Uma mulher que camufla seus sentimentos para não preocupar os demais ao redor, que sente, sofre e chora, mas chora somente se a dor for insuportável. Uma mulher que com o tempo foi dedicando tanto sua vida aos outros que foi se deixando de lado. A minha aeromoça – como eu falei para ti certa vez – que hoje dedica sua vida aos tripulantes dessa aeronave louca e conturbada.

Eu achava lindo a forma com que você se olhava no espelho e se arrumava. Colocava uma presilha nos cabelos louros, um batom clarinho na boca, um rímel para dar aquela levantada no olhar e, claro, um lápis no olho para ressaltar esses olhos esverdeados. Você maquiava seus problemas e seguia para a batalha diária.

Mas eu preciso te confessar uma coisa, mãe. Talvez você não saiba a sua força, talvez não saiba o quanto você é importante e essencial na vida de alguém, talvez a vida tenha feito você esquecer o quanto é linda por fora e por dentro, mas não esqueça em nenhum momento que você também é humana.

E não faz mal você chorar, não faz mal você se desesperar quando não achar mais uma luz no fim do túnel, não faz mal pedir ajuda e algum conselho. Mãe, não faz mal você ter seus dias de pé esquerdo, seus dias de TPM, seus medos, seus desapontamentos, suas inseguranças.

Eu cresci, mãe.

Eu não sou mais aquela criança que não compreende, eu não sou mais aquela criança que se chateia porque todos os colegas da sala possuem um Motorola V3 enquanto eu nem celular possuía. Eu já virei mocinha desde meus 11 anos, lembra? Eu sei o que é cólica, TPM, coração partido, estresse, cansaço. Eu sei o que é querer largar tudo e fugir pra um lugar calmo e sossegado, e tá tudo bem você entender que é humana e não uma super-mulher-equilibrada-sem-problemas-e-tristezas.

Eu vou bater as asas mãe, eu vou voar pra longe do ninho, das tuas asas tão acolhedoras e quentinhas. Eu estou indo enfrentar o mundo e eu precisava te agradecer antes de partir. Você me preparou para tudo o que viesse pela frente e agora é hora de eu colocar seus ensinamentos e teu amor em prática. Eu estou indo conquistar o mundo mãe, realizar os meus sonhos, mas eu volto para te buscar… Eu volto para te dar o que você nunca teve e também para, quem sabe, te ensinar coisas desse mundo novo.

É que o amor é assim mãe… É ir embora levando no coração somente o que for importante. E você é.

Sobre o Autor

Daniele Denez

Catarinense, uma boa escorpiana, ama momentos, música, histórias e boas risadas. Você sabe o seu nome, mas nem imagina sua história, você lê suas palavras, mas é impossível saber o peso que elas têm para ela.

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