Meu velho amigo

Cá estou eu, implorando um minuto do seu tempo para um consolo, um abraço e até para encontrar uma paz. Você diz que não preciso implorar, pois sempre haverá espaço mim, mas eu acho isso tão injusto, você já tem tantas outras pessoas pra dar atenção e eu venho pedir isso mesmo depois de ter me afastado.

Claro, a escolha foi minha. Com a correria do dia a dia fui começando a deixar de lado as coisas que me satisfaziam e focando no “profissional”. Filmes de romance? Deixei de lado. Já tenho alguns documentários indicados por professores para assistir. Dançar na frente da televisão? Impossível, o máximo que chego perto de fazer uma dança é na hora de colocar a calça para ir pro trabalho de manhã cedo.

Cinema aos finais de semana? Eu estou cheia de trabalhos da faculdade e trabalhos incompletos da empresa, preciso resolvê-los aos finais de semana. A casa não se limpa sozinha, e o único tempo “livre” são aos domingos. Meu namoro? Esfriou. Quem diria, né? Logo eu: “a louca por um amor estilo filme”. Eu chego em casa cansada, aos finais de semana estou esgotada mentalmente e acabamos fazendo somente o básico: “como foi seu dia?”. Beijo. “Até semana que vem, te amo”.

O pior nisso tudo é que eu acabei deixando as pessoas que eu amava e que me faziam bem de lado também. Foi o seu caso. Você acalmava a minha alma e me fazia ter persistência em tudo aquilo que eu desejava. Eu focava e ia atrás. Você me aconselhava de uma maneira… Fazia com que eu sentisse como se estivesse no teu colo sendo enroscada pelas tuas asas.

Que erro o meu.

Hoje eu consigo enxergar o quanto eu levei minha vida no piloto automático e eu estou receosa de não conseguir reconquistar tudo o que eu deixei pra trás. Ficou no passado minha autoestima, minha felicidade, minha fé de que as coisas pudessem tomar um rumo melhor…

Eu fui abrindo espaço para guardar o que a minha nova vida exigia e fui guardando numa mala, deixando em stand by, as coisas que realmente me faziam bem. + Profissionalismo, – Sentimentalismo, + Sorriso no rosto, – Motivos pra sorrir, + Colegas, – Amigos, + Armadura, – Invisibilidade, + Afazeres, – Tempo, + Decepções, – Felicidade.

Não estou cuspindo no prato que comi, mas veja bem: as escolhas que tomei não me deixaram orgulhosa e nem prazerosa, pelo contrário: ando cada dia com mais olheiras, mais choros, mais cabelos brancos e principalmente: com mais saudades.

Acho que a saudade é a pior de todas as dores que sinto no momento, sabe? Saudades de olhar uma borboleta em um gramado, acordar tranquila com um passarinho cantando, de olhar no espelho e gostar do que vejo. Saudades principalmente de rir sem motivos, mas rir do fundo da alma. Saudades de ser feliz, entende?
“A vida é assim mesmo, você precisa se acostumar.”

As pessoas que se acostumam com isso ou apenas sobrevivem ou estão infelizes, mas provavelmente elas não vivem. Eu não me vejo apenas sobrevivendo: pagando as continhas, trabalhando num escritório empoeirado, com colegas mal humorados, com amigos que moram a 05 minutos de mim, mas se tornaram amizades virtuais e com um marido que mais parece um estranho dentro da minha própria casa.

Desculpa esse meu desabafo desajeitado e também por te chamar depois de tanto tempo, mas mesmo você falando tão pouco eu já compreendi a mensagem. Eu preciso retomar a minha vida antes que seja tarde demais. Passou da hora de fazer uma faxina e desempacotar todas as coisas boas que eu guardei. Vou parar de me robotizar e me humanizar mais, e posso te dizer mais uma coisa? Você foi o salvador de uma vida vazia.

Sobre o Autor

Daniele Denez

Catarinense, uma boa escorpiana, ama momentos, música, histórias e boas risadas. Você sabe o seu nome, mas nem imagina sua história, você lê suas palavras, mas é impossível saber o peso que elas têm para ela.

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