O dia em que você invadiu meu sonho

O interfone tocou. Estranhei, não esperava visitas. Já era tarde e eu estava com os cabelos presos e de pijama terminando a quarta temporada de Breaking Bad. Passos curtos até o interfone tornaram-se longos minutos de angústia. Minha mente inquieta pensando as possibilidades de receber alguém em casa às 02:15 da manhã de sábado.

– Posso subir?

Eu não precisei perguntar quem era. Duas palavras foram suficientes para reconhecer a voz que embarcou meu coração numa longa viagem de amor há alguns anos atrás. Mas agora eu não conseguia pensar em nada mais que: “por que depois de dois anos ele está na porta da minha casa?”.

Troquei meu pijama por um shorts e uma blusinha, soltei meu cabelo e desci para abrir a porta. Meu coração palpitava como se estivesse em uma maratona. Por um minuto pensei em recuar e dizer que precisava descansar, pois teria que viajar logo pela manhã, mas nunca me encaixei no tipo que foge dos problemas.

Avistei-te pela porta de entrada e me tranquilizei. Você não parecia bravo ou irritado como pareceu esses anos todos. Estava com uma expressão tranquila. “Ufa.” Pensei. Abri a porta, você me deu um abraço longo sem dizer nada e subimos. O silêncio dominava o momento, parecíamos desconhecidos – e talvez realmente fossemos.

Entramos em casa e meus cachorros choravam e pulavam na tua perna como quem diz “estou com saudades, por onde você esteve?” Sentamos no sofá e fui surpreendida quando deitou no meu colo. Resolvi quebrar o silêncio perguntando sobre suas tatuagens novas. Conversamos rapidamente sobre assuntos aleatórios até que você desembuchou perguntando se eu ainda estava namorando. Respondi que tínhamos terminado há algumas semanas.

Você disse que namorou uma pessoa, mas que não conseguia se sentir completo. Disse que não conseguia se entregar completamente e não conseguia desabafar. Você relatou que seu namoro tinha sido mil maravilhas. A menina era boa e vocês tinham a mesma vibe, mas que pareciam mais bons amigos.

Disse que seu coração estava incompleto. Que as decepções que você passou foram suficientes para não conseguir se entregar mais para ninguém e que sentia falta de como eu o fiz se entregar de cabeça em um relacionamento. Que o que tivemos foi errado, mas que você gostava do errado. Que aqueles dez meses juntos foram o suficiente para entender o que era gostar de alguém.

Senti uma gota nas minhas pernas e quando te olhei você estava emocionado – lembro bem que você não gostava de dizer que estava chorando. E então não pude me conter e me emocionei da mesma forma, mas como sempre fui mais forte, me segurei. Fiz-te carinho no meu colo e dei um longo beijo na tua testa. Disse que se as coisas aconteceram dessa forma é porque era melhor assim. Você sentou no sofá e perguntou se eu queria passar um dia na sua casa como nos velhos tempos. Respondi que conversaríamos depois. Você se levantou, beijou minha testa e foi embora.

Fiquei mais um tempo no sofá perplexa com o que acabara de acontecer. Eu já havia deixado você no corredor do passado e você chega e bagunça tudo como sempre fez. Por um momento me peguei sorrindo por saber que você sentia minha falta e por outro pensei que não poderia me entregar a ti novamente.

Acordei. Acordei de um sonho tão real que podia sentir o gelado das tuas lágrimas na minha perna ainda. Até busquei no meu celular algum vestígio de que o meu sonho teria sido realidade, mas não encontrei nada. Sentei no sofá, onde você teria sentado no meu sonho, e a maré de saudades corroeu-me inteira.

Sobre o Autor

Daniele Denez

Catarinense, uma boa escorpiana, ama momentos, música, histórias e boas risadas. Você sabe o seu nome, mas nem imagina sua história, você lê suas palavras, mas é impossível saber o peso que elas têm para ela.

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